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23/12/2010 10h14 - Atualizado em 23/12/2010 10h24

O desafio de enfrentar gigantes

Indústrias potiguares revelam o segredo para enfrentar a concorrência e conquistar o mercado local.

Por: Lidiane Lins

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Uma relação de Davi e Golias. Assim pode ser descrita a situação da indústria de pequeno e médio porte do Rio Grande do Norte, que enfrenta diariamente a concorrência com gigantes nacionais e estrangeiras, pela conquista de um espaço no mercado local.

Apostando na qualidade dos produtos e na proximidade com o consumidor, essas indústrias vêm se desenvolvendo de forma segura e planejada, acompanhando o crescimento da economia brasileira, que tem sido responsável pela abertura de novos mercados.

Para conseguir manter o negócio lucrativo, apesar da pressão da concorrência, o segredo apontado por empresários do setor é oferecer produtos e serviços de qualidade por preços acessíveis, direcionados para atender as necessidades específicas do público-alvo. Agregar valor ao produto ‘da terra' é a estratégia utilizada por essas indústrias para conquistar a preferência do consumidor e estabelecer seu diferencial.

Os incentivos fiscais - concedidos através de programas como o Proadi (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Industrial) e reduções no ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e PIS/Cofins (Programa de Integração Social / Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social) - também são considerados imprescindíveis para a viabilidade da produção dessas fábricas. Sem eles, não haveria poder de competitividade suficiente para encarar a concorrência representada por gigantes de grande capital dos setores tecnológico e alimentício.

São exemplos de desenvolvimento da pequena e média indústria no estado, a Sidore Indústria de Refrigerantes Ltda, que produz os tradicionais refrigerantes Dore; a Plugtech do Brasil Ltda, única indústria do estado que atua no setor tecnológico; e a C. L. Dias Indústria e Comércio Ltda, fabricante dos sorvetes Viva, lançados no início deste ano.

Tradição Centenária
Passados 99 anos desde a sua fundação, sendo 58 deles de atuação no RN, a Dore Refrigerantes mantém-se como a mais antiga fábrica de refrigerantes do Nordeste e a única do estado, sobrevivendo às suas contemporâneas e contrariando todos os prognósticos da concorrência, que teimava em afirmar que a empresa não resistiria às pressões do mercado. "Ninguém botava fé na indústria local. Todos diziam que seríamos os próximos a fechar as portas", lembra Walter Byron Dore, presidente do grupo.

Fundada em 1911 por Sidney Clement Dore, em João Pessoa, a fábrica cresceu e expandiu para conquistar o estado vizinho, abrindo sua filial em Natal no ano de 1952. A fábrica potiguar, controlada inicialmente pelos três filhos de Sidney, posteriormente passou a ser comandada por um deles, Walter Dore, que permanece na presidência até os dias de hoje.

"Estamos no mercado até hoje graças a muito trabalho duro, persistência para crescer e qualidade dos nossos produtos. Acreditamos na nossa marca e buscamos sempre acompanhar as tendências de mercado", declarou Dore.

O que começou em um pequeno prédio no bairro do Alecrim, aos poucos foi ganhando contornos de um grande grupo industrial. Atualmente, a Dore potiguar está localizada no distrito industrial de Parnamirim, em uma área de 20 mil metros quadrados.

A fábrica emprega cerca de 200 funcionários diretos, que produzem 240 mil volumes mensais, o que corresponde a 2 milhões de litros de refrigerante por mês. Essa produção representa uma fatia de 20% do mercado potiguar. E a expansão não para por aí.

Com maquinário moderno e profissionais qualificados, a Dore se prepara para o aumento da demanda nos meses de verão, que este ano deve chegar a 20%. Em 2011, a empresa passará a atuar em mais um nicho do mercado de bebidas: o setor de sucos.

"Já temos todo o maquinário. Ainda não definimos quais os sucos que iremos produzir, ainda estamos em fase de preparação. Mas ano que vem, começaremos a investir nessa área também", revelou o diretor de marketing do grupo, Fábio Dore.

Tecnologia 100% potiguar
Localizada no Distrito Industrial de Macaíba, em uma área de 15 mil m² que abriga uma estrutura que nada deixa a desejar em relação aos pólos tecnológicos mais avançados do país, a Plugtech é a única indústria ativa de tecnologia no Rio Grande do Norte.

Fundada em 1998, a Plugtech atualmente tem 55 funcionários diretos e 12 indiretos. Conta com uma linha de produção que inclui a montagem de gabinetes, notebooks, microcomputadores e servidores, a fábrica chega a produzir até 12 mil equipamentos por mês, feitos sob encomenda para um público dos setores corporativo e público.

A produção é em série e feita em etapas. Os componentes chegam e vão para o estoque de componentes individualizados, para aguardar a montagem. "A empresa não trabalha com estoque de produtos prontos, pois a tecnologia muda muito rápido, não podemos correr o risco de ter estoque emperrado", afirmou o gerente industrial da Plugtech, José Luiz Costa.

Os equipamentos, montados de acordo com a demanda, já saem de fábrica com as especificações do pedido dos clientes, o que torna cada produto personalizado. Segundo o gerente industrial, esse é um dos diferenciais da empresa, que facilita o contato com cliente, estabelecendo uma relação de proximidade. "Qualquer suporte que o cliente venha a precisar, ele sabe que pode contar com uma empresa local, situada bem próxima de casa", completou Costa.

Nesse sentido, a criação de soluções tecnológicas que acompanham os produtos tem se tornado o foco da Plugtech, que não se limita mais à fabricação e distribuição de computadores.

"Para enfrentar a concorrência ferrenha do setor, que invade o mercado potiguar, nos especializamos em criar soluções tecnológicas para os clientes. Nós vamos até eles e desenhamos soluções para o seu negócio, com qualidade nos serviços. Claro que tudo isso deve ser mantido num preço acessível, o que acaba se tornando um dos nossos desafios", revelou Rose Grayse de Araújo Barros, diretora geral da Plugtech.

Varejo
Alguns anos atrás, a empresa abriu uma loja de fábrica, que posteriormente fechou as portas, por causa da grande competitividade do mercado varejista local e da pouca margem de lucro. Porém, há cerca de um mês, a Plugtech voltou a investir na venda direta ao consumidor final, dessa vez através do comércio eletrônico.

O negócio já tem dado resultados positivos, que se refletem na expectativa de crescimento da empresa para este ano, que deverá chegar a 20% em relação ao ano passado. Para o próximo ano, os planos são fortalecer os setores de soluções e serviços.

Sabor de sucesso
Com uma produção iniciada há menos de um ano e uma carteira de clientes que já superou as expectativas para 2010, a fábrica dos sorvetes Viva é um exemplo da pequena indústria local que já nasce forte.

Instalada em uma casa adaptada no bairro de Morro Branco, a empresa, que conta com seis funcionários diretos, tem uma produção diversificada de sorvetes e picolés, distribuídos para estabelecimentos comerciais da capital e da Grande Natal.

Por mês, a fábrica produz 25 mil picolés e 8 mil litros de sorvetes. Produção que deve aumentar cerca de 50% com a chegada do verão. "Estamos nos preparando para aumentar a produção já a partir deste mês, focando no público que freqüenta as praias dos litorais Norte e Sul", revelou o diretor geral da Viva, Augusto Cunha Lima.

Ele revela que, apesar das dificuldades enfrentadas nos dias de hoje pela indústria de pequeno porte, entre elas a concorrência com grandes marcas vindas de fora, o mercado potiguar de sorvetes continua aberto e em crescimento. A prova disso é o surgimento de diversas novas empresas nos últimos anos, como a Ster Bom e a Chapinha.

"O mercado de sorvetes no Rio Grande do Norte ainda é muito aberto. Tem bastante espaço para crescer e se estabelecer, conquistar a clientela. E o nosso diferencial é a qualidade, com preço acessível. Sempre digo: a qualidade dos nossos produtos vai da embalagem ao palito", afirmou Augusto.

Para driblar a competição e conquistar o público, a estratégia da Viva é manter os preços baixos, garantindo a qualidade do produto. A diversificação do produto também faz parte dessa estratégia, direcionada para atender às exigências dos públicos de todas as classes.

"A aceitação dos nossos sorvetes pelo público em geral tem sido impressionante. Nossos sorvetes estão sendo consumidos por todas as classes, não apenas A e B ou C e D, como é a tendência da maioria das marcas que atuam no Estado", destacou o diretor da Viva.

O sucesso dos produtos no mercado fez com que a empresa superasse em 100% sua expectativa de expansão para este ano, que era de conquistar 30 clientes. Até o momento, são mais de 60 pontos comerciais que revendem os sorvetes Viva, estabelecimentos como padarias, farmácias e mercadinhos.

Entre os planos de crescimento para 2011, está a ampliação da produção, assim como a abertura de uma loja de fábrica, para atender diretamente o consumidor final. Essa loja deverá ser instalada ainda durante o verão, em uma das praias do litoral potiguar.

Especialistas
O economista Janduir da Nóbrega acredita que a atuação de sucesso dessas empresas na indústria do Rio Grande do Norte ainda representa uma exceção. Segundo ele, a indústria genuinamente potiguar ainda precisa de muitos incentivos para se desenvolver e fazer a diferença na economia do estado.

"Hoje, não temos um parque poli industrial de expressão nacional, à exceção do pólo têxtil. Basicamente, somos fadados a comprar produtos industrializados de outras regiões, principalmente nos setores tecnológico e alimentício. Essas indústrias ainda estão sozinhas no estado. Infelizmente, ainda fazem parte de uma exceção. Elas têm um valor enorme, mas precisam de mais incentivos para continuar crescendo e gerando mais empregos no RN e para que sirvam de exemplo para novas iniciativas locais", ressaltou o economista.

Para a gerente da área industrial do Sebrae RN, Maria Auxiliadora Sales, o grande desafio de enfrentar a concorrência que vem de fora pode ser superado através da qualificação, para garantir o diferencial.

"As grandes indústrias têm mais acesso às novas tecnologias. Para ultrapassar as barreiras da concorrência, a pequena indústria local precisa buscar sempre a capacitação, sem esquecer da realidade do mercado em que atua" disse.

Ela cita o exemplo da própria Plugtech, que foi cliente do Sebrae no começo da sua produção. "A Plugtech, no início do trabalho aqui, contou com a ajuda de cursos, consultorias e capacitação que o Sebrae oferece. Hoje, a empresa já está bem colocada no mercado, servindo de referência não apenas para o estado, mas para todo o Nordeste", destacou a gerente.

*Matéria vencedora do prêmio Fiern de Jornalismo, categoria online, veiculada em 13/11/2010.


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